lunes, 22 de noviembre de 2010

La risa, el llanto y las hormigas de Don Ramirez

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Se você não foi seleccionado para o programa ídolos, não se desespere, você ainda pode ter um futuro brilhante como cantor. Venha cantar no metrô de Madrid, cada estação é uma festa – e às vezes mais de uma!
Tem um músico te esperando em qualquer hora do día em todos os cantos da cidade! (é sério outro día achei até um chinês tocando shemisen; foi surreal, parecía que eu tinha entrado no metrô da Calle de Alcalá e saído em Pequin).
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Hoje tomei um susto tão grande que quase caí para trás. Passei por uma esquina repleta de pôsteres apologéticos à Falange, convidando a todos para um ato contemplando sua memória histórica (tinha até uma foto de um dos membros mais proeminetes). Os funcionários do estabelecimento – era um banco – lavavam as janelas com agua e sabão na tentativa de remover os cartazes. Um calafrio percorreu a minha espinha.
Mas aí depois tive uma idéia para um samba-enredo: “Olha os movimentos neo-fascistas aí, gente!”

Estive correndo no parque e na volta, justo quando estava entrando na rua de casa, começou a tocar uma versão de “Felicidade” que tenho em meu ipod, interpretada por Caetano Veloso. Essa é a única música que eu me lembro de ouvir minha mãe cantando para mim quando era pequena, para me fazer dormir. Tive que apertar o passo para não desabar no meio da rua mesmo. E também não consegui simplesmente passar para a música seguinte.
Cheguei no prédio, mal disse “oi” pro porteiro, peguei o elevador, entrei em casa, tranquei a porta atrás de mim e chorei como uma criança que perdeu a mãe no supermercado.
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  Rezava a lenda aquí no apartamento que o propietario do imóvel (vamos chamá-lo de Don Ramirez, para efeitos narrativos) era na verdade um holograma ou o amigo imaginário da agente imobiliária (vamos chamá-la Dolores, também para efeitos narrativos). Foi então com muita surpresa que descobri que Don Ramirez não era virtual, embora seja sim uma espécie de entidade. Após passar pelo saguão coberto de mármore do chão ao teto o porteiro me indicou o elevador. Este, era um show a parte, de madeira e vidro, antiquíssimo, mas super bem conservado. Ao chegar em seu escritorio a secretaria me atendeu, e levou os papéis a serem assinados até a sala de Nossa Santidade. Não fui convidada a entrar, afinal quem sou eu além de uma formiga diante de Don Ramirez? Ali fora onde estava, fotos de crianças bem nutridas sorrindo com os cabelos molhados. No iate do vovô, talvez. Momentos de tensão e suspense… um vislumbre! Um homem careca de meia idade sentado atrás de uma tela gigante rodeado de objetos e móveis caros. Sai a secretária, papéis assinados em mãos. Uma assinatura de homem importante mesmo!
Ao pegar o elevador, desta vez para descer, olhei para os anjinhos renascentistas pintados no teto. Quase podia ouví-los cantar.

 

jueves, 18 de noviembre de 2010

La Batalla de Espartinas

Dia 20 de setembro de 2010 uma forasteira chegou a Espartinas de mala e cuia ( e bota mala nisso!). Não só era ela uma forasteira, mas vinha ocupar uma área tradicionalíssima, tomar para si um lugar cobiçado não apenas na capital, mas em todo o país. E quem é ela? É uma forasteira peculiar… Ela até se parece com eles. Freqüenta os mesmos lugares que eles e às vezes fala e se comporta como eles. E cada vez mais ela se mescla ao mundo deles, e esse mundo se torna parte indissolúvel dela mesma…
E eis que ela está prestes a tornar-se uma deles. Pelo menos jurídicamente. E quanto mais ela se aproxima deste feito, mais eles se assustam, pois afinal, como poderão diferenciá-la deles próprios?
Quase dois meses ela leva uma batalha estúpida com aqueles que estão tentando em vão dissuadí-la – pelo cansaço – de alcançar este que é não só um capricho, mas um direito que ela tem. E uma necessidade.
Lançaram-lhe prazos intermináveis, taxas que não existem, advogados… todas as suas armas mais mesquinhas. Felizmente, fez aliadas que souberam orientar-lhe bem, que sabiam melhor que ela como lidar com tais empecilhos.
Esta semana finalmente perdeu as estribeiras. Usou as únicas armas das quais dispunha: a voz e a razão. Educada, mas firmemente, exigiu que o oponente lhe entregara o que já era dela desde o começo. E ponto. Afinal, se o jogo fosse ser desleal mesmo, ela entraría nele com unhas e dentes, ainda que desgostosa. Mas achou que por bem, seria elegante dar-lhes uma última chance de fazer a coisa do jeito certo e civilizado.
Parece ter funcionado. O primeiro passo já foi dado. Mas nesse ínterin, muitas complicações aconteceram, eles a lesaram financeiramente e dificultaram sua vida. Não tem problema… nada que não tenha solução a médio e longo prazo. Ela, a pesar das intempéries ganhará a batalha, pois tem a verdade pura e simples ao seu lado. E eles, tudo o que conseguiram foi fazer uma inimiga.

domingo, 14 de noviembre de 2010

El placer y el dolor

Sábado foi decretado o dia oficial de presentear a mim mesma com um doce. Não que eu só coma doces aos sábados, durante a semana eu consumo em média 1 barra de chocolate e algumas bolachas recheadas, mas isso faz parte da minha compra do supermercado. Aliás, vendem umas bolachas absurdas no mercado aquí perto; é de uma marca genérica e por isso é super barata, mas é um biscoito de manteiga coberto com chocolate ao leite – não recheio de chocolate, CHOCOLATE mesmo. Como se diz aquí “me flipo en colores” por causa dessa bolacha. Mas enfim, como eu dizia, todo o sábado vou a uma destas docerias super sedutoras que tem aquí em Madrid e me concedo o prazer de provar uma das delicias expostas no balcão. E o prazer vai muito mais longe que apenas comer os buñuelos e tartas frescos. Docerias como a Mallorca e a Viena Capellanes (que são franquias grandes) são lugares bem decorados, com pinta de antigos e tradicionais. Eles embrulham os doces num papel bonito que leva o nome da doceria e amarram cuidadosamente com barbante. Fico feliz só de carregar aquele pacotinho tão mimoso até minha casa.
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Quarta-feira estive em Guernica. Não em Guernica, Vizcaya; Guernica, Museu de arte Reina Sofía. Mas foi praticamente a mesma coisa. Só que a data não era 10 de novembro de 2010, mas sim 26 de abril de 1937. Como todo o mundo, já conhecia e admirava o quadro. É um problema essa superexposição a imagens em que vivemos… A Monalisa por exemplo, em 2006. Foi um pouco decepcionante, ja conhecia tão bem o quadro sem nunca ter efetivamente lhe visto, que ao chegar naquele salão imenso cheio de seguranças, japoneses, filas e vidros a prova de balas, raio laser, bomba atômica fiquei frustrada.    
Calma, não foi isso o que aconteceu desta vez, embora tivesse um grupo de americanos malas competindo pelo espaço para tirar fotos (com tudo o que se acha na internet!!!!!!!!!!!) da obra-prima de Pablo Picasso. Mas o sentimento que tive foi justamente o oposto do que aconteceu com a Monalisa. Devido à sua dimensão enorme, por mais que o estudemos em livros e o vejamos constantemente em filmes, fotos, et cetera, nada se assemelha a visão ao vivo deste quadro. Na realidade, quase não o reconheci de cara, tive um “delay” de algumas frações de segundo ao entrar inadvertidamente na sala onde está exposto. Grata surpresa. O que mais posso dizer? É aterrador, a dor é tão explícita que dá vontade de chorar também.
É um quadro cubista, em preto e branco e acho que nunca vi uma cena mais sangrenta em toda a minha vida. Nem nesse último filme de mal gosto do Quentin Tarantino “Bastardos Inglórios”. Esta é a diferença entre os grandes artistas e estes aventureiros, que até podem ter potencial, mas são basicamente mantidos no topo por interessarem a um nicho de mercado (money, money, money, money) e por terem um público fiel que corrobora qualquer porcaria que façam. As formas do grande artista, a exterioridade de sua obra- as imagens que conjura se quiserem- são indisolúveis de seu discurso, um faz do outro mais poderoso, se sustentam mutuamente. Quanto mais coerentes entre si estes dois elementos, mais perdura a obra. Tirem-se os ríos de sangue falso de “Bastardos Inglórios”, essa glamouralização a qualquer custo da violência (que, tá bom, funciona muito bem em “Pulp Fiction”) e vejam o que sobra… Um vazio discursivo sem fim: as mesmas ideiazinhas razas e batidas hollywoodianas de sempre – e sem a menor graça - que fazem desmoronar o filme. Que me desculpem os fãs inveterados de Tarantino, mas este senhor deveria vir até a Espanha (como se diz em inglês “Get his ass down to Spain…”) e aprender com Picasso como se faz - como se fala de violência, de atrocidades, como se fala de guerra. 
Espero que não ofenda a ninguém (sim, já recebi uma pequena censura), mas é o meu blog, é só a minha opinião. Minha intenção é satisfazer a mim mesma e não atacar deliberadamente a ninguém.

lunes, 8 de noviembre de 2010

Epifanias

Tenho as epifanias mais idiotas pela manhã. Mas tem que ser manhã mesmo, quando acordo bem cedo (antes das 8) e fico meio torpe durante algum tempo. Como quando tinha 18 anos e acordava às 5 da manhã para ir para FAAP e um belo dia enquanto escovava os dentes completamente dopada de sono descobri que o Castelo de greiscou (do desenho do He-man, clássico da minha infância) era na verdade o Castelo de Grey Skull (o Castelo da caveira cinza), o que fazia todo o sentido. Era ridiculamente óbvio, mas até aquele momento não havia me dado conta e fiquei muito chocada com a descoberta – mais do que o normal devido ao estado letárgico em que meu cérebro se encontrava. Esta foi uma, mas como quase toda a minha vida tive que levantar cedo, foram muitas epifanías sem sentido.
Embora eu me sinta uma completa imbecil 2 minutos após estas descobertas matinais (pelo fato de serem tão toscas), o momento em que ocorrem é muito legal porque descobrir algo traz um prazer genuíno, e quanto mais velho a gente fica mais raras são as vezes em que somos arrebatados por esta sensação. Ficamos mais racionais (ou não…), mais pragmáticos, os livros que temos que ler mais herméticos e este prazer meio infantil de descobrir as coisas de maneira natural e sozinho vai se perdendo.
Esta semana aconteceu uma epifania matinal. Estava no metrô, em minha longa jornada até o colégio onde estou trabalhando (metrô, ônibus, mais 20 minutos a pé) e passei pela estação Colômbia. De repente tive um estalo e descobri o óbvio ululante, o porque da Colômbia ter este nome. Ai, ai.
Foi de longe, a parte mais interesante da minha viagem. Não gosto de usar transportes públicos logo cedo. Acho um pouco agressivo quando a gente acabou de acordar, muito barulho, gente, ansiedade de não chegar atrasado e irritação desnecessária quando o seu corpo ainda não está preparado. Coincidentemente hoje estava lendo um trecho de um libro do francês Marc Fumaroli, que se chama em espanhol “El estado cultural”.  Cita Saint-Exupéry, portanto vou fazer uma citação da citação:
“Ya no comprendo esas poblaciones de los trenes de extrarradio, esos hombres que se creen hombres y que, sin embargo, están reducidos, por una presión que no sienten, como hormigas, a la costumbre fijada. ¿De qué llenan, cuando están libres, sus absurdos pequeños domingos? ”
Alguém mais já viu essa cena em algum lugar? Não posso reclamar, o transporte público em Madrid é muito, muito eficaz, não dá nem para comparar com  as viagens que fiz durante 7 anos indo para a FAAP e para a USP. Mas esse conceito de que a vida tem que ser vivida desta forma no mundo todo (todos juntos de manhã indo em direção ao mesmo lugar, depois voltando a tarde, pasando 5 dias da semana rezando para que chegue o 6º e o 7º porque o trabalho é tão, mas tão mal distribuido) é massacrante. E para que a vasta maioria de nós nos submentemos a isso? Para que uma ínfima parte da população não precise e para que esta, mais uma vez, ínfima parcela viva exatamente como quer. E ainda somos tolos o suficiente para acreditar que só porque já não vivemos em regimes totalitários somos livres. Onde? Me mostra que eu perdi.
Desculpem meu desabafo. Às vezes tenho crises de ansiedade quando me lembro que infelizmente o mestrado só vai durar um ano.
No sábado fiz um programa cultural com algumas amigas do curso. Fomos a duas exposições (aliás fantásticas). Antes no entanto, tínhamos que comer, pois passamos a manhã tendo aula e já eram quase 3 da tarde. Caminhamos até a plaza de Sant’Ana onde tem muitos restaurantes com mesas exteriores. Fazia um dia maravilhoso de sol. Paramos no 100 montaditos, uma franquia madrileña que vende sanduíchinhos que custam de 1 a 2 euros (dependendo do recheio). Bem típico, gostoso e baratinho. E ao sol, já mencionei?
Ontem foi domingo, estive pela primeira vez no mercadillo del Rastro, uma feira enorme ao ar livre que acontece todos os domingos. É praticamente a 25 de março madrilenha: insuportavelmente lotado a ponto de irritar até os mais ávidos compradores. Só que, como já disse, ao ar livre e com um entorno infinitamente mais bonito e menos mal-cheiroso. Originalmente era um mercado de antigüidades, se achavam raridades, relíquias de guerra e vez ou outra até um Goya original (ainda que menor) do qual alguma familia abastada tinha que se desfazer. Hoje é uma mistura de tudo, antiqüario, artesanato de vó, feira hippie e barracas de grife (onde uma blusa de lã sintética custa mais caro que na Zara). Estava de novo com minhas amigas de máster, passamos o dia todo andando: do rastro a La Latina, a Plaza del Sol, ao cinema… Muito agradável. Futuros viajantes: 2 passeios custo baixo, que valem muito a pena.

lunes, 1 de noviembre de 2010

Samba. Samba? Samba!

                 Ritmo frenético: aulas, tarefas, palestras, seminários, conferências já programadas e muitas, muitas leituras. Tenho gostado das aulas, tenho bons profesores- em particular um ou dois que realmente se destacam- mas devo dizer que, o que mais me motiva são meus colegas de turma. Há alunos realmente muito qualificados, o que me fez perceber o quão incrível foi minha aprovação.  É uma atmosfera muito rica já que são pessoas vindas de diferentes formações e campos de atuação; são filólogos (como eu), historiadores de arte, filósofos, advogados, cineastas, publicitários, artistas plásticos e audio-visuais. Tenho um professor que já é um pouco mais velho que todos os outros. Ele me lembra muito o meu tio Rafael, tem os mesmos olhos azuis, uma expressão parecida e é um apaixonado pela literatura. Só que está mais velho e bem menos lúcido que meu tio. É boa pessoa, possui indubitável conhecimento, mas comete cada gafe! Outro dia, só para citar um fora tremendo, perguntou onde morava uma de minhas colegas. Ao saber que vivía no bairro de Vallecas, soltou um grunhido e emendou “Só tem uma menina que mora pior que você” – e citou o nome, o que eu não farei. O que me faz pensar, que meu tio Rafael, com a preparação acadêmica adequada, teria sido um bom professor de literatura.
                As criancinhas fofas na entrada do jardim botánico acabaram sendo um presságio do que estava por acontecer: depois de um mês tentado encontrar um “bico”, um trabalho de poucas horas semanais que me garantisse uma graninha extra, fui chamada para uma entrevista sexta-feira. Uma empresa de consultoria de inglês que contrata e encaminha professores para escolas e empresas. O cargo oferecido: uma turminha de 3 aninhos de idade num colégio aquí de Madrid.  Na verdade, nunca trabalhei com crianças tão pequenas, mas o entrevistador ficou muito impressionado com minha suposta experiêcia e com as respostas que dei sobre métodos de ensino e dinâmica de sala de aula. Disse que não ia me mandar para treinamento, que eu tinha o perfil e et cetera, et cetera.  E eu (obviamente) dei graças aos céus de não ter que fazer outro treinamento! FINALMENTE todas aquelas horas intermináveis de treinamento repetitivo que pressupõe que você é uma ameba incapaz de reter informação parecem ter acabado. Sério, fiz tanto treinamento nessa minha vida de professora que posso ficar mais uns 2 ou 3 anos sem me atualizar. E tomara que ele esteja certo mesmo. Porque a perspectiva de 13 semi-bebês me esperando todas as manhãs me enche de medo, para ser bem sincera. E as freiras que comandam o colégio, que obviamente vão me questionar incansavelmente sobre minhas origens e referências, me dão mais pavor ainda.
                 Descoberta da semana: La Tabacalera. Uma antiga fábrica de tabaco, convertida em um espaço cultural alternativo, auto financiado, nada de indústrias culturais, nem de políticas governamentais. O que significa que a Tabacalera é um espaço velho, bastante sujo, cujas divisões entre os salões é feita no melhor estilo “cortina de açougue”. Mas isso não faz o espaço menos interesante. No lugar convivem pacíficamente, a elite intelectual e a nova geração de artistas madrilenhos, curiosos de todas as tribos e classes sociais e imigrantes das mais diversas procedências. Ali todas as barreiras sociais e étnicas, tão latentes na vida cotidiana espanhola, parecem dissolver-se. É claro que você difícilmente encontrará os “pijos” (que são os riquinhos esnobes) freqüentadores exclusivos da Calle Serrano, rodando pela Tabacalera, mas mesmo assim, é o ambiente mais diversificado de Madrid. Oferecem aulas de espanhol para estrangeiros, oficinas de variadas formas de arte e dança (de flamenco a capoeira).
 Estive aí duas vezes, com minhas novas amigas do máster. Na primeira não havia muita coisa, só uma exposiçãozinha. Da segunda fui ver uma mostra de curtas. A mostra em si, foi igual a tantas outras em que fui – um monte de porcarias, alguns que mostram que talvez aquele(a) diretor(a) tenha potencial e 2 ou 3 que realmente valem a pena. Depois de uns 25 curtas, decidimos que já tinha sido suficiente e resolvemos sair. No salão principal, estavam preparando o palco. Vi minha primeira apresentação de flamenco – mal porque estava longe e minha altura não me favorece. E depois, grata surpresa, para acompanhar um show de pirotecnia (que também não vi direito), começaram a tocar um sambão, daqueles de escola de samba mesmo. Claro que não igual ao das nossas baterías, mas valeu a intenção. E valeu mais ainda ver a espanholada louca para se jogar de cabeça naquele ritmo delicioso e não saber sambar. Coitados. Começaram com as perninhas se mexendo desengonçadas, as cabeças balançando a esmo. O batida ficou mais forte, o ritmo mais contagiante. Não sabendo mais o que fazer, se entregaram ao samba como podiam: pulando louca e desenfreadamente em todas as direções. Ainda bem que com o barulho que ocupava cada centímetro da sala, ninguém podía ouvir minhas gargalhadas.
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E por falar em samba, parabéns ao nosso país, por mais uma eleição realizada democraticamente. Teremos nossa primeira presidente mulher, o que significa que, apesar de predominantemente patriarcal, nossa sociedade tomou um passo importante contra uma das formas de preconceito mais vis que assola à nossa e a tantas outras nações democráticas ainda nos dias de hoje: o machismo. Isso também foi demonstrado pela grande popularidade da canditada (que era inclusive a minha), Marina Silva. Não somos mais uma selva gigante no meio da américa latina onde se usam frutas penduradas na cabeça, na visão de quem está de fora. Em questão de menos de uma década passamos a ser vistos como um país que propõe novas idéias (em diversos âmbitos, desde sustentabilidade até combate à miséria) e que, apesar de ainda lidar com a violência urbana e a pobreza, tem muito potencial. Por isso somos sim, mais respeitados.
Esperamos todos que Dilma faça um bom trabalho.

jueves, 28 de octubre de 2010

Los subidones y las ganas de bailar

De volta a Madrid, passei a semana passada a todo vapor, inclusive peço desculpas pela demora em postar – tenho feito o que posso, quando dá. O iminente início das aulas me enchia de ansiedade. Ainda não organizei muito bem minha rotina de afazeres domésticos, e sinto que às vezes acabo me perdendo um pouco no tempo. Ontem de manhã, por exemplo, gastei duas horas entre arrumar o quarto e passar a roupa da semana, que tinha lavado um dia antes e que estava empilhada na mesa da sala. Não estou reclamando, até que me divirto. Embora minha habilidade com  o ferro seja nula (tenho pensado 3 vezes antes de usar uma camisa), passo a roupa ouvindo música, cantando e às vezes até dançando. Ontem a trilha sonora teve principalmente Beatles, com direito a repetições de  “I’m only sleeping” e “It’s only love”. Ainda não aceitei bem o fato de que vou perder o show do Paul McCartney. Mas isso é outra história.
Terça-feira (da semana passada) para amenizar o estress pré-início de aulas, fiz um sanduíche às 11 da manhã, coloquei na bolsa junto com um dos libros que preciso ler para o curso e saí de casa. Fui até o parque andei um pouco e, claro, fui até a Rosaleda. Ali almocei meu sanduíche junto às flores, com um sol estupendo. De sobremesa comprei um sorvete de chocolate com amêndoas numa lanchonetezinha no próprio parque, altamente recomendado pelo senhorzinho que me atendeu. Ao caminhar em direção à saída do parque, debaixo daquele sol maravilhoso, comendo aquela delicia gastronómica fui tomada de uma felicidade súbita, ou como se diz aquí, um “subidon”. Me ocorreu que o fato de estar comendo uma bomba calórica é absolutamente irrelevante quando nos sentimos tão bem, e que realmente não me importava se nunca mais conseguisse perder aquelas calorias. Depois de meu almoço no parque continuei andando e descobri uma rua muito charmosinha só de sebos. E eles também expõem ao ar livre. Por mais legal que tenha sido a descoberta, me fez lembrar que as aulas começariam muito em breve e voltei a ficar ansiosa. Dobrando a esquina, já se via o muro do Jardim Botânico. Decidi que era para lá que eu ia, para relaxar outra vez. Nem precisei chegar lá. Na metade do camino cruzei com um grupo de crianças saindo vindo de uma excursão ao Jardim. Não tinham mais que 5 ou 6 anos de idade e estavam acompanhados de suas professoras. Todos iam em pares de mãos dadas com um amiguinho (a), felizes, rindo, falando, pulando e sorriam quando passavam por mim. Coisa mais fofa! Tive outro “subidon” e me esqueci outra vez das aulas.
O Jardim Botânico é legal, principalmente os canteiros de dálias. Mas, de verdade, nenhum parque no mundo supera o Retiro. Tenho ido correr lá com certa freqüência.  O bem estar é indescrítivel. Você está ouvindo sua musiquinha para se distrair enquanto se exercita, o sol brilha, as folhas marrons começam a cobrir o chão, passam outras pessoas se exercitando, vovôs com os netinhos, cães bonitos (saudades do Sancho!) e de repente, um esquilinho sai correndo na sua frente e pula numa árvore.
Quarta-feira estive na biblioteca pública aquí do meu bairro e me tornei membro. E para explicar para o atendente que eu eu tinha o passaporte espanhol (por tanto era cidadã), mas não o DNI (documento nacional de identidad)? Ele apontava um número que aparecia no meu passaporte (que não era o número do passaporte) e perguntava: “Mas este é o seu DNI, né?”. E eu respondia que não sabia, o que o deixava confuso... Demorou um pouco, mas deu certo. Já trouxe dois libros para casa e hoje vou buscar mais um.
                Quinta era o grande dia, início oficial.  Para me distrair, saí de casa peguei o metrô e desci na estação Anton Martín, em pleno Barrio de las Letras, antigo reduto de escritores, poetas e intelectuais. As ruazinhas caóticas, muitas só para pedrestes dão um charme especial ao bairro. Queria ver a casa de Cervantes. Hoje na verdade é um convento, só se pode ver a fachada. É um lugar interesante… nada de grifes, só lojinhas alternativas de roupas, acessórios, comics… tinha uma que vendia adesivos que diziam “Madrid - de puta madre”. Passei pela rua onde deveria entrar e nem me dei conta, então acabei dando uma volta maior pelo bairo. Foi assim que me deparei com um lugar especial – antes da casa de Cervantes. Vinha por uma ruazinha estreita que desembocava em outra, só para pedrestes. Diante de mim diviso uma vitrine repleta de calçados. Mas estes não eram calçados comuns, eram sapatos de flamenco. De vários modelos, cores, detalhes. A loja é um “taller” os sapatos são artesanalmente feitos lá. Senti meus pés com muita força me avisando – “queremos bailar”- quase movendo-se involuntariamente; foi um momento de memoria sensorial muito intenso, podía sentir o peso dos meus sapatos de flamenco nos meus pés, a altura exata que meus calcanhares ficam do solo, como mover-los, o som que se produz a cada passo e a força exata que tem que se colocar em cada movimento para que este som saia corretamente… eu ainda me lembro. Eu ainda amo estas sensações. Depois de algum tempo mais por lá, voltei para casa e comecei a me preparar para as aulas. Mas até às 16:30, horario em que começaram as aulas, tudo o que podía pensar era flamenco.
                Isso já é assunto para o próximo post, mas ontem estive num lugar chamado la Tabacalera. Descobri que dão aulas de flamenco grátis de segunda-feira às 5 da tarde. Quem sabe se minha mãe lembrar-se de enviar meus sapatos?
               

jueves, 21 de octubre de 2010

Herencia

Minha visita a Almería potencializou tudo o que eu vinha sentindo desde que cheguei à Espanha. Tem alguma coisa neste país que que faz com que tudo simplesmente flua melhor. Ainda que a minha língua nativa não seja a deles e que ainda tenha muitas referências culturais por aprender, não me sinto estrangeira. E em contrapartida, muito raramente sou reconhecida como uma. Sou livre e, ainda que seja uma liberdade assistida, comprada, finalmente sinto que estou no lugar certo.  
É sobre isso que quero falar neste texto. Sobre estes momentos em que somos tomados pela certeza de que estamos no lugar certo na hora certa, e que é muito óbvio que você só poderia estar ali.
A sensação foi crescendo ao longo dos días que passei por lá. Primeiro aconteceu passeando pelo centro de Almería com meus tios. Fazia um dia lindo de sol e passamos diante de um restaurante com mesas ao ar livre. Numa destas mesas, quatro senhoras tomavam seu café da manhã. Muito normal, se não fosse pelo fato de que todas vestiam trajes típicos “rocieros”, que eran vestidos longos de bolas, flores e peinetas no cabelo. Não resisti, tirei uma foto de longe sem que notassem, para não incomodar ninguém. Imagino que todos os leitores deste blog saibam do meu amor incondicional pelo flamenco. E ainda que estivesse na Espanha a quase um mês, não tinha visto mais que cartazes de shows pelas ruas de Madrid. Mais tarde neste mesmo dia, estava com meu primo e sua namorada ainda no centro da cidade. Visitamos a catedral, uma antiga fortaleza do tempo dos árabes, e fomos em seguida para a igreja da Virgen del Mar, a padroeira local. Já tinha um pouco de fome e sabia que minha tia estava fazendo paella, então não estava lá muito afoita para entrar. Mas, ao nos aproximarmos ouvi uma música diferente… uma guitarra flamenca… seria possível? Estava acontecendo um casamento e a trilha sonora – pirem! – era música rociera, acompanhada da melhor guitarra flamenca e cantes populares de Andaluzia. Nada de música erudita, marcha nupcial, não, não.
Reconheci um dos hits, a famosa cancão popular que diz “…olé, olé, olé, al Rocío yo quiero volver…”. A noiva, na nave principal, segurava um abanico branco de renda. E à esquerda do altar, o coro de rocieras com suas roupas de cores vibrantes com bolas, seus mantones, suas rosas no cabelo e algumas castanholas… Diante do meu choque, meu primo explicou que era um casamento tradicional, típico da região. Sem ofensas por favor, mas aquilo fez todos os casamentos em que já fui na vida parecerem um tédio sem fim. Entrei num frenezi que não consigo reproduzir com palavras, foi uma experiencia única. Pena que não deu para ficar até o final.
No entanto, o ápice emotivo desta viagem veio dias mais tarde. Estávamos em Armuña, já havia conhecido todo o pueblo - ainda que com dificuldade já que a cada metro andado, era apresentada a três pessoas diferentes –, já tinha passado umas 15 vezes na frente da casa onde minha avó nasceu e viveu, tirado fotos e então dois tios meus me levaram a Laroya. Neste vilarejo onde nasceu a minha bisavó e aí morou até os sete anos. Para quem não sabe, ela viveu no Brasil dos 7 aos 15 anos e depois voltou para Espanha devido a uma tragédia familiar. Durante estes 8 anos ela se apaixounou pelo nosso país de tal maneira que todos aqui a chamavam – e chamam até hoje- de Carmen, la brasileña. E não sossegou até que finalmente arrastou o marido e os 5 filhos pro Brasil com ela. Essa é a história bem resumida de parte da minha família.
Enfim, chegamos em Laroya, uma cidadezinha encantadora cravada na montanha. Na entrada um busto de Cervantes, que documentadamente esteve no vilarejo no ano de 1594. Me sentía como se pisasse em solo sagrado… um lugar que viu a passagem de muitos e muitos anos, sem mudar quase nada em seu aspecto físico, sua aparência. Descendo uma rua, chegamos ao final do pequeno pueblo. Daí pegamos um caminhozinho de terra, beirando um barranco e por aí seguimos entre almendros, olivos e outras árvores, arbustos e ervas nativas… Dez minutos depois lá estava o moinho de mi abuelica. Ao seu redor nada mais que a natureza. As pedras sobrepostas uma a uma há quase dois séculos atrás, ainda resitem à força dos anos. Finalmente verti lágrimas. O moinho tinha sido dos avós da minha bisavó e agora eu estava diante dele como quem vem para tomar chá e botar a conversa em dia. Tentei entrar, mas uma planta bastante espinhosa e algum entulho bloqueavam a passagem. Só conseguía chorar e pensar como aquilo seria uma moradia maravilhosa se o interior fosse restaurado. Dizem que os donos atuais não querem vender… quem sabe no futuro?
 Só de lembrar do moinho me vêm lágrimas aos olhos.
Termino este post com ninguém menos que o senhor Miguel de Cervantes, com uma frase que propiciamente estava embaixo de seu busto na entrada de Laroya.
“La libertad, Sancho, es uno de los más preciosos dones que a los hombres dieron los cielos; con ella no pueden igualarse los tesoros que encierran la tierra y el mar: por la libertad, así como por la honra, se puede y se debe aventurar la vida.”
Uma frase de quase 500 anos, gravada na entrada de uma vilazinha perdida no tempo, explicou  tudo o que estou sentindo, o que venho sentindo desde que este novo projeto de vida começou a tomar forma. E explica tudo o que sentiu minha bisavó há 60 anos atrás. É ou não é pura emoção?