martes, 29 de marzo de 2011

"Estoy harta de ser buena" o el efecto borde

borde (adj m/f) - grosso (a)

"Borde!" me peguei gritando outro dia pra um cara na fila na frente da Casa América. Basicamente, o que aconteceu é que estávamos Olga e eu imaginando se aquela fila era para uma peça de teatro gratuita que haveria ali. Quando nos encorajamos a questionar um casal que estava na fila o "borde" se intrometeu: "Pra fila!", disse apontando com o polegar o fim da fila. Em choque, pedimos calma já que só estávamos pedindo informação. O "borde" prosseguiu, o polegar ainda no ar:  "Não estão vendo que estão dando ingressos?"... respondemos em uníssono "Não." O "borde" então, não só não pediu desculpas, mas continuou falando com aquela cara de quem acha que tem razão... eu não ouvia mais nada, o sangue subindo.... De repente escuto a Olga: "Usted es un mal educado!" e minha voz passando por cima da sua em alto e bom som "BORDE!". A fila começou a andar e o homem, sem me responder, andou com cara de reprovação. Olhei para o lado, incrédula. Uma senhorinha passava... tinha visto e ouvido tudo. Olhou pra mim e começou a dar risada. "Então, acho que devo ir pro final da fila", disse rindo e passou.

Verdade seja dita, nunca fui super calminha de levar desaforo pra casa - a não ser que seja estritamente necessário para o bem de todos, inclusive o meu - desde meus 12 anos, mais ou menos. Desde bem antes até. Xingo de volta no trânsito, sou ríspida com atendentes mal-educados, e já cheguei a enfrentar professor e até chefe... meus pais então coitados, sempre com a menina respondona que não aceitava não como resposta sem antes perguntar "porque não?" - embora sempre tenha sido muito obediente, gostaria de frisar. E não digo que me orgulho de ser temperamental. Até porque ser desse jeito é na verdade uma maneira que algumas pessoas, e eu obviamente, acham pra se defender, pra lidar com a agressividade alheia, e não é das mais eficazes. O fato, no entanto, é: preparem-se amigos e familiares, mas volto ao Brasil com a casca mais grossa do que nunca. Graças a 6 meses de Espanha. Não estou me queixando, resmungando, criticando... só constatando. Já me flagrei dando patadas bem dadas -como nunca antes - em bibliotecárias mal-educadas, atendentes mal-humoradas, garçonetes grossas e até um policial (calma, tive o cuidado de só dizer um "Estás de broma!", nada pelo que pudesse se ofender). O único lugar onde já segurei a onda muitas vezes é aqui em casa, mas até isso tem ficado mais difícil. E eu sei que não era assim. E por um lado é extremamente libertador, já que tenho engolido muito menos sapos. Por outro, acho que às vezes posso atingir quem não merece, inconscientemente, só pelo fato de que eu já não lido com as pessoas da mesma maneira e com a mesma doçura - a exceção de quem é realmente próximo.

Sempre que assitia "Mulheres a beira de um ataque de nervos" me partía de la risa, como se diz aqui. Aquela mulherada tresloucada, com umas reações completamente exacerbadas.... mas agora, no entanto, eu realmente compreendo aquelas mulheres e suas motivações não me parecem em absoluto absurdas, ao contrário, me parece muito natural que se sintam assim. Me encontrei diversas vezes sentindo-me como a Pepa (personagem interpretada pela incomparável Carmen Maura) que ao virar uma caixa inteira de sonífero num liqüidificador cheio de gazpacho, diz memoravelmente: "Estoy harta de ser buena!". Estas palavras adquiriram um novo sentido pra mim aqui. Viver na Espanha é uma experiência extraordinária, fiz amigos maravilhosos, estou constantemente rodeada de gente querida. Mas um país tão nacionalista - tá bom, chega a beira do provincianismo bairrista às vezes -, com tantos preconceitos entre seus próprios habitantes, exige invariavelmente que todos tenham que agarrar seu espaço, nem que seja no dente. E é assim que a coisa funciona. E se você não entra na dança, morre pisoteado pelo "taconeo". Adotar essa atitude dramática, impulsiva que por vezes se transborda em grosseria parece ser o único jeito de estar na Espanha amando-a. Resumindo, você aprende a ser grosso pra não deixar que a grosseria dos outros estrague o seus dias ensolarados. Assim, todo mundo se irrita por 10 segundos, troca desaforos, depois vai todo o mundo pra casa e em 10 minutos ninguém se lembra de nada. O pior é que... eu acho que lá no fundinho.... sempre fui um pouco assim. E as pessoas que são super-mega-ultra sensíveis sempre foram um problema pra mim, já que elas tendem a demorar pra entender que mesmo sendo meio "borde", eu realmente gosto delas e não gosto de machucar ou ofender ninguém. Se me irrito é por 10 segundos e depois acabou.

O que não dá pra conceber é quando as pessoas vem com racismos eurocêntricos ou te humilham pessoalmente num ambiente universitário, onde se imagina que essas coisas não existam. Aí a coisa fica feia, e ainda que a Pepa e seu gazpacho envenenado me venham à cabeça, o melhor a fazer é respirar fundo e usar todo o meu brasileiríssimo senso diplomático. E aquele sorriso impecável. Funciona sempre.

Pero en realidad os digo... a veces esta gente me pone harta de ser buena.

sábado, 12 de marzo de 2011

Água de Beber

Há uma coisa que eu sinceramente desejo para toda e qualquer criatura digna de ser chamada humana: a capacidade de deixar-se apaixonar. Por pessoas, idéias, lugares, posibilidades e até por si mesma. Amar a qualquer coisa sem pensar no amanhã, como um adolescente. O amor, por piegas que soe, é a única força capaz de mover-nos através de continentes, que nos faz cruzar oceanos e encontrar motivos para seguir descobrindo caminhos ainda que às vezes que tudo pareça um pouco cinza e todos os rostos carrancudos.
Sem a possibilidade do amor, nada faz sentido… Viver uma vida sem esas paixões incríveis pelas quais somos arrebatados e tirados de nosso eixo é como estar constantemente a procura de água num deserto. Porque alguém faria isso?
 Não amar é a verdadeira irracionalidade.
Eu amo sim, intensamente e me apaixono com enorme freqüência por todo o tipo de coisas. Minha última paixão foi uma idéia tão louca que vim vivê-la do outro lado do Atlântico. Depois de ficar meses obsecada, pesquisando, me inscrevendo em universidades, fazendo exames. Pensando nisso agora, foram 6 meses da minha vida dos quais eu quase não me lembro de ter vivido; só lembro de estar febrilmente apaixonada pela possibilidade de estudar na Europa. E aqui estou. Na Espanha, efetivamente estudando, com uma bolsa de estudos. E tudo isso só foi possível porque eu ousei sair da minha zona de conforto e me apaixonar loucamente por essa idéia, que virou uma possibilidade e por fim uma realidade.
Que houve, há e haverá contratempos e decepções, evidente que sim. Em qualquer tipo de amor que se pense. Mas isso… ah isso é tão ínfimo perto da alegria que um grande amor pode trazer. Por isso meus amigos tão queridos, eu lhes aviso, lhes afirmo, lhes peço, lhes imploro: amem! Muito e sempre. Sua família, seu trabalho, seus projetos, seu cachorro, gato, papagaio, sua banda ou filme favorito, seus amigos,  seu namorado(a) e se precisar até sua sogra de vez em quando. Assuma estes amores até o fim, diga em alto em bom som e que o mundo inteiro saiba. É o mínimo que você pode fazer por si próprio. E a melhor coisa que posso desejar para qualquer um. E quando o amor acaba… bem acabou. Mas vale a pena ter vivido até o último suspiro.
Roubando, mais uma vez, Tom Jobim : “o medo pode matar o teu coração”. E mata mesmo.  

jueves, 3 de marzo de 2011

The London Saga Part 2 - the plane crash likeliness

Acabei demorando uns 5 dias mais do que esperava pra escrever o fim da história.... Espero que vocês ainda queiram saber o final.
Bem.... estavamos em Heathrow, não é mesmo? Sem bilhete de volta. E sem saber o que fazer. Ouço um alerta de mensagem. Pego o celular... a bateria estava acabando. Antes de ficar incomunicável, resolvo mandar um e-mail pra minha mãe, não sei exatamente porque. Achei que ela deveria saber o que estava se passando na eventualidade de acontecer alguma coisa e eu desaparecer do mapa. Pensei que deveria assustá-la o menos possível, mas acredito que acabei escrevendo algo como "completamente desesperada". E além disso atualizei meu perfil no facebook dizendo que havia perdido o vôo... o que é francamente bizarro, mas na hora me fez sentir mais segura. As coisas catastróficas que passam pela nossa cabeça quando estamos totalmente desesperados.
Enfim, depois de ser informada pela amável assistente de informações, que estava començando a ficar de mal-humor porque eu estava deliberadamente interrompendo a conversa dela, que de Heathrow apenas saiam vôos vips (leia-se que companhias low cost - que não iriam me cobrar 600 libras num bilhete pra Madri - não operam aí), tive que sair em busca de internet. Ela me apontou a escada rolante. Não sabia direito pra onde ir, o que procurar, como respirar. Pensava nas pessoas felizes que estavam esperando no portão de embarque naquele mesmo momento e eu sem saber quanto iria ter que desembolsar nessa patetada.
Achei o locutório. Era self service. Você colocava 1 libra e o computador te dava 20 minutos de internet. Em 20 minutos tive que fazer pesquisa de preço em 4 sites de linhas aéreas (ryanair, easyjet, e-dreams e aireuropa), reservar o bilhete que era mais barato, prestar atenção em todos os detalhes e ainda colocar os dados do meu cartão de crédito em um computador público. Não foi legal. Tentava pensar que o importante era sair de Londres. Aos 17 minutos, bilhete comprado. Tirei uma foto da tela do computador só pra ter registrado o número de reserva. Estava sem bateria no cel, não tinha caneta. Easyjet, às 19.05. Eram mais ou menos 14.30, e tinha que me transladar até o aeroporto de Gatwick. Imaginei que não iria demorar mais que 2 horas pra chegar lá... Ha!
O bilhete do ônibus expresso eram 22 libras. Achei caro, dadas as circunstâncias. Fui até o metrô. Expliquei o que necessitava. Fui atendida por um indiano. Me explicou que tinha de metrô até Victoria Station. De lá, pegar o trem que ia diretamente a Gatwick. Me vendeu um bilhete combinado. Por fim, Victoria Station, depois de 45 minutos amargando e pensando no meu vôo que estava já nos ares, rumo a Madri. Busco o trem pra Gatwick. Na entrada outro indiano me diz que meu bilhete não servia para aquele trem. Achei que era piada. Ele disse que eu deveria conversar no guichê. Lá fui eu, com o terceiro indiano. Ele confimou que o bilhete era para um outro trem que saia de London Bridge. Diante da minha exasperação ele buscou o jeito mais fácil de ajudar. Disse que eu podia comprar um bilhete de um dos trens que saiam dali e ir até East Croydon. Dali, pegar finalmente o trem para o qual meu bilhete era válido. E (quem sabe???) chegar ao aeroporto de Gatwick. Me explicou o que tinha que fazer. Eu olhei para ele (com uma expressão tresloucada, imagino) e perguntei "ARE YOU SURE?". Ele respondeu que sim, pegou um papel e uma caneta e anotou. "Olha está aqui, anotei pra você."
Aquele papel não ia fazer a menor diferença se ele estivesse equivocado, mas diante do erro do primeiro atendente, ele tentava fazer com que eu confiasse na informação. Subi no trem pra East Croydon... Sem saber quanto ia demorar, por quantas estações ia passar. A perspectiva de perder um segundo vôo era aterradora e eu tinha vontade de fechar os olhos e gritar. No alto falante do trem anunciavam que o trem ia se dividir a partir de tal lugar, e eu ficava rezando pra que minha estação fosse antes disso. Depois de 20 minutos passamos pela primeira estação.... não era East Croydon. Seguimos. Casinhas, campos, riachos, coisinhas inglesas. Próxima estação East Croydon. Saio do trem. Para minha frustração a estação é gigante, com umas 10 plataformas. Qual seria a minha?  Já pássavamos das 16.30.  Ando desnorteada algum tempo até encontrar uma funcionária da estação. A primeira brit em horas. Um sotaque que parecia escocês. Vomito minha história com os trens. Ela calmamente diz "É realmente esse trem não sai de Victoria... sai de London  Bridge.", pausa dramática - "Aqui passa por esta plataforma (apontou pra plataforma à nossa direita)."
Depois de uns 5 minutos o famigerado trem parou na plataforma. Eu outra vez, sem saber quanto ia demorar, podia ser uma viagem de 15 minutos ou de 2 horas. Ansiedade, ansiedade, algumas estações, campos, casinhas, chaminés, ansiedade, outra estação, campo, bosque, Gatwick. Por fim. Eram quase 18. Saí correndo do trem, entrei correndo no aeroporto e pra minha sorte o check in da easyjet estava montado bem na entrada. Outro indiano, simpático.
Vou para o embarque. Passo no raio X e adivinha? Minha mochila apitou. "Você tem líquidos na sua mochila?". Respondo que sim, mas tudo inferior aos 100 ml permitidos. "Estão no saquinho plástico?". Digo que não. "Ah, por isso. Mas agora sua mala terá que ser revistada". Esperei no cantinho uma mulher que abriu minha mala passou um detector de metal pediu que colocasse os líquidos no maldito saquinho e me liberou.
Pronto. Estava lá dentro, pronta pra decolar. Só precisava descobrir o portão, porque em Gatwick eles não informam na passagem. Olho o painel. "Madrid 19.05 - delayed to 21.05". Duas horas de atraso. Fui ao banheiro, lavei o rosto, escovei os dentes - duas vezes. Voltei ao saguão, pûs a mochila no chão e notei (o óbvio) que o carregador do meu celular não era compatível com as tomadas inglesas. Estive imóvel por alguns minutos. E depois tive uma crise de choro violenta. Estava convencida que o avião ia cair, ou que o outro avião que tinha perdido ia cair, que aquele definitivamente não era um dia para voar. Quando estava prestes a desistir pra sempre da Inglaterra, uma senhora que passava se deteve. Me olhou e disse, com aquele jeitinho meigo dos velhinhos que haviam tirado a minha foto dias antes "Você está bem querida?". Eu, sem conseguir parar de chorar disse que sim. Ela me olhou com peninha e perguntou "Tem certeza?". Parei de chorar um instante e agradeci sorrindo o quanto podia... "Só estou tendo um dia difícil. Mas já está melhorando.". Ela sorriu de volta dizendo "Melhor assim." e se despediu.
O vôo foi uma tortura, estava realmente paranóica. Olhava para os lados para me certificar que ninguém estava usando aparatos eletrônicos que pudessem interferir com o sistema de navegação.Todos pareciam potenciais terroristas: o cara de turbante, o inglês ao meu lado que lia um livro sobre a Iugoslávia, o casal espanhol com uma filhinha chinesa de uns 5 anos e a aeromoça Patrocinio. Tentei dormir o máximo possível e tirar tanta abobrinha da cabeça, mas era difícil relaxar. O avião deu umas tremidas fortes. Entrei silenciosamente em pânico. O piloto avisa que vamos a entrar em uma zona de turbulência... não ajudou muito. No fim, durante toda a "zona de turbulência" o avião não deu um chacoalhão sequer.

Aterrisagem à meia noite em ponto. Me lembro de estar na porta do aeroporto de Madri esperando o ônibus expresso que vai do aeroporto ao centro.... amava a Espanha, Madri, o aeroporto de Barajas, o sistema de transporte prático e fácil, amava o ar madrileño e fato de estar em casa. Em casa. Percebi o quanto a gente se apega. Achava que eu só podia me sentir assim no Brasil, no aeroporto de Guarulhos, rumo à Nina Rodrigues. Enfim.
Só pra constar, Londres vale e valeu a pena. E voltarei sempre que puder. Bem mais cuidadosa com a pontualidade, como uma boa inglesa.

domingo, 20 de febrero de 2011

The London Saga Part 1 - the Carol Beer effect

Duas semanas. Foi o tempo que levou pra eu parar de ter calafrios, palpitações e flashbacks de pânico do meu último dia en Londres. E portanto, o tempo que levou pra eu conseguir voltar a escrever.
Antes de entrar nos detalhes sórdidos, no entanto, não posso deixar de dizer o quanto eu gosto desta cidade. Minha breve impressão de 4 anos atrás se confirmou. Londres é bonita, pitoresca, cosmopolita e muito fotogênica - apesar do chuvisco constante. Tudo vale.... até um cara vestido em lycra roxa (da cabeça aos pés) e paletó marrom andando displicentemente pelas ruazinhas atrás de Westminster Abbey. Na calçada do palácio de Buckingham um aviso, prova da conhecida boa educação britânica: "criminosos, cuidado: policiais à paisana estão trabalhando neste local". Poxa, até abri minha bolsa pra tirar a máquina fotográfica, sem medo de ser feliz!

Não vou dizer que não foi surpreendente (tá bom, admito, um pouco decepcionante) descobrir que eu falava em inglês melhor que muitas das pessoas que me atenderam em restaurantes, estações e lojas. Entrar num ônibus às 18 é uma experiência alucinante. Cada canto do veículo é um foco lingüístico diferente (alguns reconhecíveis, outros nem em sonho). Acho que nem o condutor falava inglês. Mas e os britânicos? -me perguntava eu - Cadê? Bom além do agente de imigração que me disse "Welcome to England!" no melhor sotaque londrino quando cheguei, só encontrei mais exemplares no dia seguinte. Mas que exemplares! Sabe quando queremos tirar uma foto e ficamos olhando ao redor procurando a pessoa mais simpática pra pedir. Pois é, nesse caso os mais simpáticos eram um casal de velhinhos mais British que o próprio big ben. Não só eles pareciam simpáticos, mas foram uns amores, se dispuseram prontamente a tirar a foto e fizeram piadinhas no melhor estilo "brit-naive", o que deixou minha amiga e eu encantadas.

E assim transcorreram 2 dias, entre pontos turísticos, caminhadas, muito tempo gasto no famoso "commuting" (ir de um lugar ao outro demora muito mais em Londres que em Madri, por exemplo) e feiras de rua. Destas últimas, a de Notting Hill é um must. O problema é que ainda me faltavam a Tate e o Globe Theatre (pra quem não sabe este último é uma réplica do teatro onde Shakespeare encenava suas peças. Como meu vôo era às 14.30, acordei cedo e, calculando o tempo (lembrava quanto tinha demorado o trem do aeroporto até o centro) fiz essas duas visitas. Saí e fui o mais rápido que pude para o metro mais próximo. O trem demorou quase meia hora mais do que tinha demorado na vinda. Cheguei a heathrow em cima da hora. Corri para o stand da Ibéria. "Esse vôo não é nosso. Você tem que ir até a British airways. O vôo é deles". Corro para a British. "O check já fechou há 5 minutos. Você não pode pegar o vôo.". Alguma resposta exasperada e sem ar de quem acabou de levar um soco no estômago. "O problema é seu. Quem mandou chegar tarde?". Alguma outra resposta, algo com as palavras "pelo amor de deus" e "corro até o portão de embarque". Outra negativa. Sou enviada pro stand da Ibéria outra vez, afinal comprei a passagem deles. "Ah, não posso fazer nada. Você deveria ter pedido a troca de bilhetes ontem.". Se não estivesse tudo rodando ao meu redor provavelmente teria respondido "Jura? Poxa, não programei direito meu atraso, né?". Peço que ela tente me colocar no vôo seguinte. Ela calmamente me informa que a passagem pro vôo seguinte custa 600 libras. Eu pergunto "PRA MADRI?". Ela me olha com uma cara desperezível de blazé. "Vou ver o que posso fazer por você.". Me diz na maior cara dura "Serve um vôo pra Bilbao?" . Eu respondo, já começando a ficar furiosa porque ao invés de estar perdendo essse tempo ridículo com esse diálogo insano a la Carol Beer do seriado Little Britain (aquela atendente que só responde "computer says noooo.."), eu poderia estar pegando o meu vôo: "Óbvio que não serve Bilbao! Que raios eu vou fazer em Bilbao? Eu moro em Madri!!!!!". "Ah, então busque a easyjet". Já com lágrimas nos olhos e o maior desespero de toda a minha vida chego no stand de informações, pergunto pela easyjet e pela Ryanair. "Esse aeroporto é só pra vôos caros. Não sai nenhum desses vôos aqui. Você terá que comprar pela internet."

Essa é uma história muito comprida, cheia de reviravoltas.... Esta foi apenas a primeira parte. Voltarei no próximo post com o resto da história. Estive a ponto de roer minhas unhas umas 5 vezes, enquanto escrevia. Prometo não demorar tanto para escrever o final, assim se houver algum masoquista curioso, não sofrerá muito.

sábado, 22 de enero de 2011

Granada

O trem saiu as 5.45, pontualmente como sempre. Ainda faltavam duas horas para que amanhecesse e duas horas para a chegada em Granada. Os viajantes já cansados de antemão. As cabeças pendendo adormecidas. Acordei aturdida e vi uma estação passando.... "Onde estou?!".... vejo uma placa passando rápida ao meu lado "Granada".... Tínhamos perdido a estação. Baixamos na seguinte, trocamos de plataforma e voltamos. Mais meia hora no trem e quando me dou conta já estamos passando por Granada de novo. Uma enorme ansiedade toma conta de mim desperto outra vez, desta vez fora do sonho. O trem está parado em Guadix, pueblo a uma hora de Granada. Prudente, aciono o despertador e pouso a cabeça na janela. Está tudo bem... ouço um ruído incômodo, não sei exatamente de onde vem, não consigo reagir. Recobro a consciência aos poucos, e enquanto abro os olhos minhas mãos fuçam a bolsa em busca do despertador. Sinto o trem crescentemente reduzindo a velocidade e a luz ainda fraca lá fora não ajuda meus olhos a distinguir onde estou. Passamos por um muro con letras garrafais "GRANADA".

Granada é um desses lugares que fazem todos os clichês de agência de turismo parecerem verdade. Linda de morrer, acolhedora. Granada tem uma vida, uma força, um não sei que faz a gente querer viver cada passo com a maior intensidade possível. La Alhambra nos faz voltar no tempo viver por algumas horas num mundo alheio ao nosso. Boquiabertos diante do engenho daqueles que viveram tantos séculos antes de nós e desolados com soberba cultural de nosso mundo ocidental. As ruazinhas cheias de histórias, símbolos mistérios... é um banquete à imaginação. Se Alhambra coroa a cidade com sua majestática beleza, el Albaicin é o coração granadino. Este bairro de mais de 1000 anos pulsa. Chegar no Mirador de San Nicolas onde se tem vista da serra nevada fazendo fundo aos palácios de La Alhambra já é em si algo embasbacante. Se isso ainda por cima acontece num dia maravilhoso de sol, com um grupo de gitanos locais cantado uma buleria improvisadérrima no meio da praça, é simplesmente inexplicável. Tente desatar o nó garganta... é simplesmente impossível. Descobrir em suas ruas tortuosas tabernas típicas e casas de chá arábes com delícias para o olfato e o paladar é outro prazer à parte. E o rio Tejo (sim, em Granada!) dá ainda mais charme a todo o conjunto.

Diante de todo esse encanto, eu só tenho uma pergunta a fazer. Por que diabos aquele reizinho emergente-de-mal-gosto conhecido como Carlos V resolveu construir um puxadinho imbecil bem atrás de um palácio perfeito e mil vezes mais maravilhoso do que qualquer coisa que ele poderia construir com arquitetos obviamente inferiores? Se alguém souber me responder isso com um bom argumento, acho que seria uma pessoa mais conformada.

 

domingo, 5 de diciembre de 2010

Ego vs Alter

Tatu
Após descer dois terços das escadas intermináveis até o trem, ouço uma batida conhecida… tata tatata tatatata… Parecia que tinha uma TV ligada em algum canto, transmitindo os especiais de fim de ano da globo.
O cantor de música brega da estação Príncipe de Vergara tem Roberto Carlos em seu repertório. Versão dublada em espanhol, é claro.
Dois días depois no mesmo ponto na estacão Príncipe de Vergara, um clarinete, bem diferente da voz estridente de antes. Tocava tico-tico no fubá. Lindo, lindo, lindo…
Black hole
Não sei se é o frio, as preocupações das últimas semanas, a impossibildade de resolver tantos probleminhas, a aproximação das festas de fim de ano ou tudo isso junto, mas entrei numa fase de introversão… me sinto como um buraco negro engolfando tudo ao seu redor desde estrelas brilhantes e belas até o pó mais sujo e desprezível. E assim tenho passado estes últimos días entre o sublime e o mundano, a alegría e a dor, a excitação e o tédio. De tudo isso me saturando. Invevitavelmente. Constantemente. Crescentemente.
 Prevejo explosões cósmicas em breve.
               
              Meu nome não é Telma.
                Eu realmente sinto se é uma decepção viver comigo, mas meu nome não é Telma. Se a Telma era a sua melhor amiga no mundo, bem, talvez ela não deveria ter ido embora. Mas ela foi, buscou outra vida e agora eu estou aqui ocupando o espaço que antes era dela. E, por mais que você não goste, este espaço agora não é mais da Telma. É meu.
A Telma fazia as coisas de tal jeito e você já estava acostumada, não é? A Telma tinha uma vida tão torpe quanto a sua, não é? Mas agora ela não tem mais, e quase nunca te vê. Mas de qualquer maneira, dá na mesma. Porque eu não sou a Telma. Tampouco quero ser a Telma. Porque a Telma é uma pessoa que não sou eu. Sei que e muito complexo, mas você pode entender?   
A Telma e você tinham algo especial, ela fazia o que você mandava e o que você quería. Eu também deixei amigos tão especiais para trás. Mas eu não sou a Telma. E não é que eu faça as coisas do jeito errado, não é mesmo? É que simplesmente eu sou a pessoa errada. Sinto informar-lhe, mas eu vim para ficar e esse “jaleo” todo não mudará minha resolução, ainda que me faça viver sobre um chão de ovos que você arroja diariamente sob os meus pés. Mas ainda assim, eu não sou a Telma. E simplesmente não há nada que você possa fazer.
Prazer, meu nome é Raquel.

lunes, 22 de noviembre de 2010

La risa, el llanto y las hormigas de Don Ramirez

Anúncio:
Se você não foi seleccionado para o programa ídolos, não se desespere, você ainda pode ter um futuro brilhante como cantor. Venha cantar no metrô de Madrid, cada estação é uma festa – e às vezes mais de uma!
Tem um músico te esperando em qualquer hora do día em todos os cantos da cidade! (é sério outro día achei até um chinês tocando shemisen; foi surreal, parecía que eu tinha entrado no metrô da Calle de Alcalá e saído em Pequin).
__________________________________________________________

Hoje tomei um susto tão grande que quase caí para trás. Passei por uma esquina repleta de pôsteres apologéticos à Falange, convidando a todos para um ato contemplando sua memória histórica (tinha até uma foto de um dos membros mais proeminetes). Os funcionários do estabelecimento – era um banco – lavavam as janelas com agua e sabão na tentativa de remover os cartazes. Um calafrio percorreu a minha espinha.
Mas aí depois tive uma idéia para um samba-enredo: “Olha os movimentos neo-fascistas aí, gente!”

Estive correndo no parque e na volta, justo quando estava entrando na rua de casa, começou a tocar uma versão de “Felicidade” que tenho em meu ipod, interpretada por Caetano Veloso. Essa é a única música que eu me lembro de ouvir minha mãe cantando para mim quando era pequena, para me fazer dormir. Tive que apertar o passo para não desabar no meio da rua mesmo. E também não consegui simplesmente passar para a música seguinte.
Cheguei no prédio, mal disse “oi” pro porteiro, peguei o elevador, entrei em casa, tranquei a porta atrás de mim e chorei como uma criança que perdeu a mãe no supermercado.
 ___________________________________________________________________________
  Rezava a lenda aquí no apartamento que o propietario do imóvel (vamos chamá-lo de Don Ramirez, para efeitos narrativos) era na verdade um holograma ou o amigo imaginário da agente imobiliária (vamos chamá-la Dolores, também para efeitos narrativos). Foi então com muita surpresa que descobri que Don Ramirez não era virtual, embora seja sim uma espécie de entidade. Após passar pelo saguão coberto de mármore do chão ao teto o porteiro me indicou o elevador. Este, era um show a parte, de madeira e vidro, antiquíssimo, mas super bem conservado. Ao chegar em seu escritorio a secretaria me atendeu, e levou os papéis a serem assinados até a sala de Nossa Santidade. Não fui convidada a entrar, afinal quem sou eu além de uma formiga diante de Don Ramirez? Ali fora onde estava, fotos de crianças bem nutridas sorrindo com os cabelos molhados. No iate do vovô, talvez. Momentos de tensão e suspense… um vislumbre! Um homem careca de meia idade sentado atrás de uma tela gigante rodeado de objetos e móveis caros. Sai a secretária, papéis assinados em mãos. Uma assinatura de homem importante mesmo!
Ao pegar o elevador, desta vez para descer, olhei para os anjinhos renascentistas pintados no teto. Quase podia ouví-los cantar.